Mostrando postagens com marcador crônicas (?). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônicas (?). Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de março de 2012

Vida

Eu estava apaixonado. Escrevia poemas e gravava cds imaginários pra ela. Ouvia as músicas mais românticas da historia e ensaiava diálogos cheios de amor.
Eu comprava flores e deixava murchando em casa. Escrevia post-its lembrando que todo dia era um dia a menos sem ela. Escolhia os melhores livros para dar de presentes em datas especiais, fazia seleção de restaurantes para almoçarmos juntos aos domingos, baixava filmes pra quando estivesse chovendo sábado a noite.
Comprei camiseta pra ir almoçar na casa dos pais delas, escolhi terno pro casamento da irmã, criei coragem pra avisar os amigos que finalmente eu tinha sido fisgado.
Aprendi a preparar café da manhã, troquei os lençóis do meu apartamento e comprei um quadro dos smiths pra colocar em cima da cama.
Me habituei a lavar a louça e a deixar sempre um prato congelado do freezer, caso ela viesse me visitar de surpresa. Contratei uma mulher pra tirar o pó dos móveis, peguei um tapete bonito com a minha mãe e esvaziei uma gaveta do banheiro.
Joguei fora as toalhas velhas, abria a janela todos os dias de manhã e dei um jeito nas caixas de som que estava chiando.
Organizei os discos na prateleira, limpei o histórico do computador e mudei algumas coisas de lugar.
Troquei as lâmpadas que estavam fracas, comprei gilette nova e cortei o cabelo depois de meses. Me desfiz de algumas playboys pra ela colocar algumas revistas dela, arranjei talheres novos e uma pasta de dente menos forte.
Escolhi sabonetes mais cheirosos, deixei um espaço pro shampoo dela no banheiro e abri as portas do guarda-roupa pra sair o cheiro de mofo.
Agora meu apartamento está iluminado, com cheiro de vida. E ela, ela eu nem sei onde está.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

João Gilberto no trem bala

Maria Eduarda estava voltando pra casa depois de uma noitada, no trem das meia noite e vinte e seis. Estava sonolenta, passara o dia todo perambulando à procura de um amor, que não encontrara.
Sentou no acento preferencial, que nunca tinham velhos, já que estes se recusavam a arriscar suas vidas no novo meio de transporte.
Estava quase dormindo quando um senhor entrou e sentou ao seu lado. Achou estranho ver um homem, daquela idade, entrando pela porta de vidro que não fazia ruído nenhum ao abrir.
Ele carregava um violão velho e tinha os óculos de ouro. Ela o encarou e disse: João, quanto tempo!
Ele olhou pra ela, meio tímido, e só sorriu. Encarou o violão torcendo pra que Maria não puxasse assunto. Maria continuou.
"gosto muito daquela música, em que você canta sobre A Felicidade"
"é a que as pessoas mais gostam, vou te dizer."
Maria encarou os reflexos na janela, e quis chorar. Sabia que a música era uma das mais verdadeiras que já ouvira, e não parava de cantarolar.
Ficou pensando no que seria da sua vida se a felicidade que ela tanto procurava passasse rapido demais, fazendo não valer o sacrifício.
Há muito havia esquecido o que era ter momentos alegres, já que procurava, sem sucesso, a plenitude.
Maria leu uma vez que nunca estamos satisfeitos. É preciso estar muito triste ou em êxtase, o que fazia um sentido absurdo, e era como uma lei que regia a existência humana (se não humana, só dela e do autor da frase)
Pensou em quantos momentos perdera por pensar que melhores viriam e pensou em quantas pessoas deixara de lado, achando que encontraria outras tantas melhores.
Ouviu o sinal de que a estação havia chegado, olhou pro lado e João já havia sumido.
Até hoje Maria não sabe se o nome do único senhor do trem bala era João, mas jurava que o ouvira cantando "tristeza não tem fim, felicidade sim" enquanto ela encarava os reflexos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

E aos 65 anos, sento aqui esperando a morte chegar.
Lembro quando lia bukowski na minha adolesencia e almejava ser um escritor. O mais perto que consegui chegar foi apostar nos cavalos do jogo do bicho às quartas-feiras.
Hoje levanto de manhã, tomo café, vou ao bar, jogo umas partidas de baralho, como um torresmo, volto pra casa, bebo pinga antes do almoço, almoço, e tiro um cochilo pra voltar ao bar dessa vez pra assistir tv e conversar com alguns amigos antigos que não me escutam mais.
Chego sempre antes da primeira novela começar, e vou dormir depois de mudar de canal insistentemente algumas vezes.
Tranco as portas da casa, apago as luzes, vou ao meu ritual noturno e deito esperando o proximo dia. às vezes nem durmo.
E entao tem dia que resolvo escrever, mas não há o que falar.
Não conheço pessoas novas ha muito tempo, nao tenho mais contato com meus filhos ou netos... e minha mulher morreu sem me deixar muita coisa pra contar, além de algumas dividas e os sonhos que tinhamos e nao realizamos.

outubro/10

domingo, 7 de agosto de 2011

What's the matter with the boy?

Batia sol no apartamento o dia todo, fosse natural ou refletido pelas janelas espelhadas do prédio gigante na frente do meu que tampava toda a visão da cidade.
Era insuportável passar a tarde lá dentro, mas como eu nunca o fazia, nem sei como soube que era tão insuportável; talvez instinto, ou talvez pelo morninho quando eu chegava a noite após o trabalho.
Nenhuma flor sobrevivia ao dia abafado, então meu apartamento era um pouco morto. Minha TV não era ligada há dias, e eu quase nunca tirava o pó da estante de livros - que também tinha uns souvenirs de lugares que nunca estive.
Eu trabalhava o dia todo e a única coisa que me orgulhava era ter a geladeira cheia de cerveja todo dia, pra receber quem fosse me visitar, coisa que raramente acontecia.
Um dia Ana, a garota da faculdade, apareceu. Não por sorte tinha muita cerveja pra passarmos a noite, já que eu nunca sabia sobre o que conversar e disfarçava tomando longos goles de cerveja enquanto ela dissertava sobre sua vida.
Tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, onde tinha ido passar as férias. Disse que chegou e foi direto pra São Francisco,. Me trouxe um souvenir, e eu o coloquei junto dos outros depois que ela foi embora.
Enquanto ela estava lá acendi um cigarro pra ela se sentir a vontade e acender o dela. Seu isqueiro era dos rolling stones e naquele momento me lembrei porque não queria que ela fosse me visitar nunca.
Ana namorava meu melhor amigo e eu era perdidamente apaixonado por ela. No primeiro dia de aula da faculdade ela foi com uma camiseta dos stones e eu tinha acabado de chegar de uma cidade em que ninguém conhecia o keith richards. Claro que achei que iríamos nos casar porque ela era a única garota do mundo que ouvia rolling stones.
Foram semanas até que ela terminasse com o Pedro. Mas eu nao tive coragem de me aproximar assim, de sopetão, e acabamos virando amigos.
Ela me contava de suas aventuras pelas noites de São Paulo e tudo que eu queria é que ela fosse beber cerveja no meu apartamento. Nunca contei pra ela minhas reais intensões, e entao ela começou a namorar um babaca do direito que também não devia saber quem o Keith Richards era.
Me conformei - como costuma acontecer sempre - e fiquei em casa um tempo ouvindo tudo, menos exile on main street e seus derivados. Bebia mais que o normal, e me acostumei a ficar sozinho olhando a janela procurando garotas vestindo camisetas de bandas que eu gostava. Parava pra conversar com toda menina que passava por mim e vestia Velvet Underground ou Beach Boys, e não eram poucas. Algumas acabaram no meu apartamento, bebendo cerveja e ouvindo suas bandas favoritas, fumando na janela observando tantas outras garotas.
Uma delas era bem bacana, assistíamos a filmes e falávamos sobre como nossos herois morreram, e eles eram os mesmos e nunca estiveram nos quadrinhos. saiamos juntos domingo a tarde e compravamos discos e tomavamos cafe da manha de ressaca. Ela era mesmo uma garota legal e eu nao conseguia me lembrar porque nao tinhamos dado certo, até aquele momento.
Julia, a garota dos filmes, passou por mim com uma camiseta dos smiths e eu me apaixonei na hora. Depois de uns meses saindo juntos, ela me deu um isqueiro dos stones. Pronto, não conseguia mais. a unica garota do mundo que gostava de stones era a Ana, e eu lhe dei de presente o isqueiro que ganhei, que nao queria usar nem guardar na minha estante.
Foi como uma despedida, Ana foi morar em outro país e nunca mais nos vimos. E agora ela estava ali, na minha frente, acendendo um Lucky Strike com o isqueiro que eu havia ganhado e tinha lhe dado como se fosse meu coração.
Inventei alguma desculpa e pedi pra que ela fosse embora. Ela não entendeu, mas foi. Assim que Ana bateu a porta eu peguei meu album favorito de todos os tempos pra tocar e deitei na cama ouvindo rocks off.
Nenhuma garota valia aquele disco, eu tinha certeza. E dormi cantarolando And I only get my rocks off while I'm dreaming, I only get my rocks off while I'm sleeping.

sábado, 23 de julho de 2011

Pamela, talvez.

Eu a conheci na mesa do bar. Bem sexy pra uma garota sozinha às 3 da manhã.
Bebia uísque com gelo e usava uma camiseta dos stones. Uma típica garota com quem eu sairia, se não fosse pela garota com eu estava saindo.
Pamela era ruiva e magra, tinha sardas, peitos pequenos, e seria bem interessante se não fosse pelo fato de ser uma completa idiota.
Nos conhecemos por um amigo em comum numa balada de quinta, ela foi dormir em casa porque estava bebada demais pra pegar um táxi.
Saimos juntos desde então, completando 3 meses juntos ontem, e é claro que ela nao lembrou. Até comprei um presente, um disco do Fellini, que ficaria bem na minha coleção, caso ela não merecesse. e não mereceu.
Eram quase oito da noite e eu não aguentei e fiz a ligação. Nunca nos ligavamos. Nos encontravamos por acaso, hora no metro, hora na casa de alguém, e sempre acabavamos juntos no meu apartamento por ser o lugar mais conviniente. Ontem ela não me atendeu.
tentei 3 vezes, e nenhum retorno. Resolvi sair.
Essa garota eu conheci no bar. Bem sexy pruma garota sozinha Às 3 da manhã. Parecia interessante e me falou que gostava muito de bukowski - eu usava uma camiseta do velho safado. Ela tinha o cabelo curto e as unhas pintadas, fumava um cigarro atras do outro e reclamava de como os homens falavam alto. Eu estava me animando com a possibilidade de esquecer a pamela e ir pra cama com uma garota de peitos grandes quando ela perguntou se eu tinha um carro e me ofereceu um gole do seu uísque. disse que se eu nao a tirasse de lá, ela me mataria com a faca que trazia na bolsa. Não pedi pra ver a faca, nem perguntei seus motivos, mas a levei pra fora. Ela tinha os olhos pintados e boca vermelha. Me deu um beijo e foi embora.
Que saudades eu sinto da Pamela. Acho que é um bom momento pra ligar e contar a aventura da madrugada. Espero que ela esteja acordada. Prometo nunca mais procurar garotas em bares às 3 da manhã.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sábado a noite

Pedro resistiu um pouco mas se convenceu a ir a festa no fim das contas.
Paula e seu melhor amigo estavam bêbados há dias e quase perderam o metro.
Sentaram no banco preferencial e recitavam Bukowski, enquanto do outro lado da cidade Pedro passava seu perfume mais caro do que todas as bebidas que Paula havia tomado.
Pedro pegou o carro e saiu pelas ruas da cidade ouvindo Serge Gainsbourg e cantarolando num francês recem-aprendido, enquanto Paula brindava à vida ao subir às escadas em direção à casa da aniversariante desconhecida.
Pedro estacionou o carro e guardou o radio no bolso do casaco, enquanto Paula era apresentada a todos os rapazes da festa como a garota mais legal do pedaço.
Paula atravessou a casa e foi direto à área de fumantes, com um cigarro aceso, cantarolando um de seus clássicos preferidos no começo da noite de sábado.
Pedro chegou no bar e pediu um uísque de inicio. Olhou em volta à procura dos amigos.
Paula tirou o sobretudo e o pendurou na sacada, Pedro ajeitou o chapéu e conversava com o barman.
Um cigarro a mais e um copo de bebida a menos, a noite mal começara e já sentiam falta um do outro. Paula nunca ligava, Pedro nunca atendia.
Pegaram-se pensando nas noites regadas a cerveja ao som de fellini e luzes do godard. Desejaram mais do que tudo não estarem ali; queriam voltar ao quarto pequeno de porta trancada com o brilho do sol do lado de fora.
Pedro procurou Paula na área de fumantes - sabia que era onde ela podia se encontrar. Paula foi atrás de Pedro no bar, seu lugar favorito em qualquer lugar.
Na festa de Pedro tocava pós-punk, na de Paula um hit pseudo-popular. O destino não queria junta-los de novo e por sorte eles sabiam que era assim que devia ser.

terça-feira, 18 de maio de 2010

uma viagem antes de ir

Acordara sedenta diante do laranja da parede um pouco furada. O relógio marcava as horas, os minutos - e a respiração dela, os momentos.
Lembrava vagamente da noite anterior. Olhou pro lado depois de sonhar com o amor da sua vida a madrugada inteira e quase chorou ao ver que o mesmo não se encontrava.
Levantou e arrastou-se até a escrivaninha. Ligou o radio e deixou rolar algo que lembrava nat king cole enquanto colocava uma dose de whisky no copo de plástico.
Bebeu tudo. De uma vez. E pensou em voltar pra cama.
O barulho do relógio a despertou e ela desceu as escadas procurando um pouco de agua. O copo, sem whisky, jazia em suas mãos um tanto brancas demais.
Apoiou-se nas paredes até chegar à porta.
Saiu andando procurando viv'alma que lhe tirasse o gosto de ressaca da boca. Não encontrara ninguém e voltava pra casa quando deu de cara com o grande rapaz de olhos verdes e sorriso manso que lhe oferecera um cigarro.
Recusou dizendo que estava atrasada para um encontro no seu quarto - com o velho 12 anos - mas logo em seguida aceitou o fumo e ficou pra mais uma viagem antes de ir.
Seus olhos se fecharam. Havia sangue neles... e estavam pesados.
Quando despertou, olhou pro lado e sorriu ao ver que o amor de sua vida encontrava-se ao seu lado e a garrafa ainda estava pela metade na escrivaninha.

domingo, 29 de março de 2009

Segunda de manhã

Passando correndo pelo cascalho molhado de orvalho fresco ainda, ela sente a brisa de um novo dia acariciando-lhe as maçãs do rosto e também sente o gosto de algo inacabado tomando conta de sua saliva ainda inerte e tomada de soluços e desejo.
O dia amanhecia e suas roupas ainda estavam umidas de suor.
O arrebol tomava-lhe o olhar enquanto ela seguia num mesmo ritmo que lembrava um blues acelerado ou apenas preocupação, pois estava atrasada.
As ruas ainda estavam vazias; provavelmente, todos os transeuntes tão comuns àquele asfalto estivessem ainda dormindo, aproveitando seus últimos momentos de descanso, enquanto ela andava mais depressa, de olhos pouco abertos, atrofiados pela luz do sol ainda criança surgindo num horizonte que ela não conseguia enxergar.
Sentia-se feliz e leve, embora fosse inverno e suas roupas pesassem um bocado.
Seu nariz vermelho estava mais rubro que o normal e sua boca, ressecada por lembranças e vertigens, devaneios que a acompanhavam desde que saíra a caminho de sabe-se lá o que.
Ouviu os primeiros ruídos do dia. Carros começaram a ultrapassa-la numa velocidade surpreendente e pessoas surgiam nas bancas de jornal e nas padarias que tinham o noticiário da manhã passando em todas as tvs.
Seu coração havia desacelerado um pouco, podia agora respirar com calma e lembrar detalhadamente dos momentos passados há pouco.
Sabia que nunca mais voltaria. Ela era gato de rua, não queria ter dono.
Acabou chegando em lugar nenhum. E adormeceu.
Ela encontrara o amor da sua vida, mas preferia ter o destino como melhor amigo.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Exoticos

Ele sempre fora charmoso.
Tinha lábia de galanteador e gingado de malandro tipo zé carioca com chapéu Panamá.
As garotinhas caiam aos seus pés porque gostavam, mesmo que inconscientemente, de uma fuga relativamente rápida do estereotipo de homem bonito.
Ele se divertia. Devorava corações e cuspia pedaços de seu pulmão degradado pelo cigarro.

Ela era um tanto tímida.
Cortara os cabelos como um sinal de rebeldia latente que queria avisar ao mundo que estava chegando. Tinha os dentes amarelados por culpa do café e a pele branca por falta de melanina.
Os garotos a enxergavam como um amigo e o amor de sua vida até então tinha sido um vizinho pequeno e gordinho, que a tratava como uma mulher. O único.
Ela o adorava e pensava ser inteiramente feliz. Talvez o fosse mesmo.

A cidade não tinha muita diversão.
Eram sempre as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, falando sobre os mesmos assuntos chatos sobre as vidas das mesmas pessoas chatas que frequentavam os mesmos lugares chatos.
Os horizontes dele foram abertos há tempos... os dela ainda estavam em estágio fetal.
Se trombaram por acaso num misto de tédio e amigos em comum enquanto o caos seguia indiferente e as pessoas iam pra casa depois do trabalho ainda embaixo de sol por causa do horário de verão.
Era comum chover. Ele sempre chegava molhado e ela sempre estava esperando há algum tempo.

Nunca combinaram nada. Tudo corria naturalmente; sem pressão, sem pressa, sem ritmo.
Ela aprendera alguma coisa sobre livros e ele estava descobrindo como era se prender a alguém.
Era uma troca de favores sem o peso de denominação alguma.
Eram, por si, sós e agora estavam juntos.

Eles mudaram um bocado com o passar do tempo.
Cresceram na mesma proporção grande e harmoniosa de um casal de linhas paralelas que por ventura se trombavam no infinito repleto de qualquer coisa.
Ele sempre teve outras. Ela, por vezes, também.
Mas isso não importava. Não muito. Não pra eles.

E como dizia alguma dessas escritoras de livros de banca de jornal, entre eles o ar tinha gosto de sábado, e eles deveriam ter sido mais espertos guardando toda aquela luz pra eles, pois ela acabou cegando os pobres de coração e doentes de espírito; e como se fosse uma regra que nunca tem uma excessão, eles foram cancelados.

As cortinas baixaram e a plateia ovacionou o fim do espetaculo que nem teve tempo de atingir o ápice.
Não haveria mais mocinho e mocinha, nem grandes beijos cinematográficos ou cenários encantados.
Hoje cada um tem sua vida. Cada um tem sua estrada.
É certo que um dos dois ainda pensa que os caminhos voltem a se cruzar em algum trevo de quatro folhas e enquanto isso não acontece, as pessoas que compraram os ingressos da primeira fila pedem autógrafos físicos aos personagens principais para que eles não tenham tempo de encenar um novo romance entre eles.

Só queria deixar claro, pra qualquer telespectador dessa cronica entre duas pessoas que simplesmente se encontraram em um momento de solidão e liberdade e resolveram se completar sem fazer mal há ninguém, que essa historia ainda terá seu grand finale.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O garoto mais lindo da cidade.

"Ele vem descendo a rua.
Ele vem imaginando uma solução.
Ele anda no mundo da lua.
Ele anda na sua solidão"
O domingo começara claro com aquele sol de manhã de verão entrando pelas frestas da janela de madeira iluminando meu quarto só meu e das minhas duvidas e do meu gato que dormia em cima da minha mão ocupando muito espaço na minha cama.
O dia tinha cheiro de final de final de semana e minha boca tinha gosto de tabaco enquanto as reminiscências de um sábado triste e chuvoso cobria meus olhos por eu ser tão entregue e tão sozinha e tão idiota e tão toda coração.
Na noite anterior eu havia deixado meu amor escapar pelos meus dedos inteiro pronto pra ser atacado por qualquer biscate que o quisesse. Meu amor que tem o tamanho do vácuo dos meus braços e que tem meu estômago por inteiro e o pedaço de pulmão que ele quiser.
Meu peito doía e não era dor física, era angustia e medo e eu resolvi abrir a janela e encarar o dia e começa-lo de vez sem esperança alguma, porque, se alguma vez ele chegou a prometer algo eu sabia que não ia cumprir.
Fiz força pra destravar as folhas de madeira e minha cabeça doeu assim que dei de cara com a luz que vinha do céu e de todas as outras partes vivas daquela manha viva de domingo morto pra mim.
Eu precisava descer as escadas e comer algo antes que vomitasse. Foi o que eu fiz.
A casa estava vazia com um recado na geladeira pra mim, avisando que viriam me buscar lá pelas três e me levar junto por mais que eu não quisesse ir.
No final do recado haviam as palavras "com carinho" e assinatura nenhuma.
Desejei com todas as minhas forças que qualquer um dos meus amores - os platonicos não praticantes, os platónicos distantes, os platonicos mortos ou os platonicos por si só - viesse me buscar e eu não pensei em cavalo branco ou buquê de flores; eu queria mesmo algumas cervejas e uns cigarros e um abraço e umas palavras de conforto.
Desisti de comer, não tinha fome e nem mais estômago e abri uma cerveja do meu pai (se não tivesse amor, pelo menos tinha álcool).
Sentei na cadeira de cara pra casa do cachorro ausente e pensei em muitas coisas ao mesmo tempo e no final não me lembrava de nenhuma.
Terminei a cerveja e pensei em pegar mais uma, mas estava com nojo de mim então fui para o banho antes. Involuntariamente olhei pro relógio antes de fechar a porta do banheiro e descobri que não tinha se passado nem metade do dia e eu já implorava pra que ele acabasse.
O chuveiro estava gelado e as luzes, apagadas. Encostei na parede fria e deixei que a água me purificasse, como num rio sagrado, e revolvi memórias e defesas e rezei por toda criatura viva. Rezei pelos que eu não lembrava e pelos que não lembravam de mim. Rezei pelos que morreram e pelos que insistiam em viver. Rezei pelo meu avô e pelo cara da TV. Não rezei por mim, porque não quis. Rezei pela garota que achava que sabia o que era amor e que acreditava nisso. Rezei pelo menino com acne que bate punheta toda manhã antes de sair pra ir pra escola. Rezei pela puta e pelo cuzão. Rezei pelas senhorinhas que saiam para ir à feira e rezei pelos beatos que não acreditavam mais em Deus. Rezei pelos homens desacreditados e pelos meninos perdidos. Rezei pelas minhas amigas e pelos meus homens. Rezei e desliguei o chuveiro.
Sai molhando a casa, enrolada na toalha. Andei devagar até meu quarto e coloquei uma roupa limpa. Esqueci de fechar a janela antes de jogar a toalha em cima da cama desarrumada, mas isso foi detalhe.
Era quase uma da tarde quando o telefone toca.
O rapaz bêbado do outro lado precisa de sexo e precisa conversar.
Dediquei-lhe alguns minutos ao telefone. Ele queria enfatizar o quanto eu não gostava dele e dizia que estava apaixonado e que queria me ver. Deixamos o assunto sexual pendente pruma outra hora, prum outro dia, pra quase agora, quem sabe. Ou não.
Liguei o computador pra ouvir musica. Não queria saber de conversar com mais ninguem. Eu precisava só ouvir e mais nada.
Liguei pro namorado da minha amiga e disse que estava descendo rapidinho pra pegar uns cigarros com ele. Ele disse que tudo bem mas pediu pra eu me apressar.
Vesti meu tênis sem meia e sai correndo. Ele me esperava no portão com 3 cigarros na mão e disse que não me dava mais porque restavam poucos pra ele. eu não discuti, nem poderia, e voltei correndo pra casa depois de lhe agradecer devendo mais uma vez minha alma a alguém.
Cheguei em casa sem fôlego e tirei o tênis na entrada. Peguei uma caixinha de fósforo e subi as escadas pra minha e só minha area de fumantes e acendi um cigarro na sombra.
Saia Doors do computador e entrava paz nos meus pulmões.
Acendi um cigarro no outro pra aproveitar a brasa e joguei o filtro fumado em cima do telhado que já está repleto de bitucas.
Conferi o horário e estava quase na hora de me buscarem pra fazer algo que até então não sabia o que era.
Terminei meu cigarro e guardei o outro pra depois, entre o kerouac e ginsberg, na minha caixa de artista.
Tomei outro banho pra disfarçar o cheiro e escovei os dentes.
Coloquei uma calça e uma camiseta e sentei na cama encarando a tv enquanto a voz do jim morrison saia e invadia o quarto inteiro me transportando pra outra dimensão totalmente inventada por mim naquele momento de pura solidão e conhecimento até que o telefone toca.
Implorei pra que fosse o bêbado de outrora ainda precisando de uma garota qualquer pra satisfazê-lo pra eu não pensar duas vezes e me jogar no meio das pernas dele e poder me livrar daquele gozo preso nas minhas entranhas.
Eu atendi o telefone e respondi apenas com um "tá" e peguei meu óculos escuros e desci as escadas.
O carro me esperava na porta e o tempo estava fechado. Deixei o óculos no sofá da sala e tranquei a porta depois que sai, sem conferir se o gato estava dentro ou fora de casa. Gritavam meu nome e me apressavam e eu peguei o tenis que havia largado na porta e o vesti no caminho.
Começou a chover assim que entrei no carro - como acontece nos filmes - e o domingo, como um típico dia de verão, que fora só sol e calor, agora era cinza e cinza e chão.
A chuva ainda estava fraca e depois de um tempinho chovia e fazia sol. Alguma viuva devia estar casando, mas isso não era de meu interesse.
Meu interesse descia o morro, bem perto e muito longe de mim, enquanto o carro seguia na subida íngreme. Ele tinha os cabelos molhados e o olhar de gato de rua inconfundível. Encarou as janelas escuras do carro como se soubesse que eu estava a observá-lo com água na boca e vontade nos olhos, mas garanto que ele nem pensava em mim.
Insisto em fingir que ele ainda é o amor da minha vida simplesmente pra eu me enganar e fingir que não sofro porque paixões platonicas só existem porque sim e não fazem mal se eu não quiser que façam.
Mas não, não adianta.
Ele só é o garoto mais lindo da cidade.

sábado, 31 de janeiro de 2009

e há aqueles dias que cheiram a domingo de manhã

Ela acordou desnorteada no meio de um lugar familiar, mas não conseguia descobrir realmente onde estava.
Fechou os olhos por mais alguns instantes e após abri-los viu tudo embaçado então tornou a fechá-los e dessa vez pressionou-os com força com seus dedos finos e demorou um pouco mais pra encarar a realidade na qual se encontrava.
Já enxergava pontos brancos em sua escuridão cegamente fingida quando esquecera de prestar atenção em qualquer coisa.
Ouviu uma porta sendo aberta e virou-se languida na cama com os lençóis cobrindo-lhe o corpo sem cor e sem carne e sorriu para o rapaz que saia do banheiro com o rosto recém lavado vindo beijar-lhe as maçãs do rosto com carinho e amor. Logo depois de cobria-la de pequenos afagos disse que precisava ir, pois estava atrasado pro trabalho e que voltaria mais cedo pra saírem pra jantar e comemorar os 3 anos de casamento informal morando no apartamento aconchegante em uma avenida movimentada e acolhedora onde transeuntes se esbarram indiferentes o dia todo mas que no fundo são pessoas e se conhecem por carregarem carmas e felicidades e historias pra contar.
Ele colocou a camisa e piscou pra ela antes de fechar a porta do quarto.
Se conheceram numa tarde, de uma forma pouco formal. Ela tropeçara nele e ele disse que só teria seu perdão se lhe pagasse uma cerveja. Ela achou divertido e entrou no clima, pagando algumas cervejas, que foram retribuídas com uma carona e uma noite ótima.
Duas semanas depois estavam morando juntos no apartamento dela, já que ele dividia o seu com outro dois amigos que não se incomodaram com sua partida, dando a maior força, colaborando com um tapete pra sala e uns copos haha.
Levavam uma vida normal pra eles. Ele tinha uma banda e ela era redatora de um jornal. Saiam todos os finais de semana e conheciam boa parte da cidade. Brigavam de vez em quando e ela o colocava pra dormir no sofá e no outro dia o acordava com um belo café da manhã dizendo que ele era o homem de sua vida e que seria pai de seus filhos que talvez nem existissem.
Tinham coisas em comum o suficiente pra nunca discutirem na porta do cinema na escolha de um filme e nunca obrigarem o outro a abaixar o som do carro.
Ela saia de manhã com óculos escuros e cabelos presos e parava sempre na mesma padaria pra pedir seu café expresso enquanto ele se cortava fazendo a pouca barba que tinha.
Adoravam ficar na cama até tarde em dias de folga, mas ele adorava mais as pernas dela e ela adorava mais as costas dele.
Ele a levava pra jantar sempre que podia e ela comprava discos e livros novos pra ele toda vez que ia a livraria.
Não cobravam muito um do outro, por mais que ela tenha tido crises de ciúmes sem motivo e por mais que um dia, em meio a uma brisa de qualquer coisa que seja, ele tenha apagado todos os números de homens da agenda do celular dela, inclusive o dele.
Tinham parado de fumar juntos. E voltaram a fumar juntos, também, pra provar que se amavam.
Ela acordou desnorteada no meio de um lugar familiar, mas não conseguia descobrir realmente onde estava.
Fechou os olhos por mais alguns instantes e após abri-los viu tudo embaçado então tornou a fechá-los e dessa vez pressionou-os com força com seus dedos finos e demorou um pouco mais pra encarar a realidade na qual se encontrava.
Já enxergava pontos brancos em sua escuridão cegamente fingida quando esquecera de prestar atenção em qualquer coisa.
Ouviu um apito e jogou o despertador no chão.
Correu ao banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes. Encarou-se no espelho e então decidiu que seus dias não mais teriam cheiro de domingo de manhã, mas sim gosto de sexta a noite.
Ligou pro rapaz no qual havia tropeçado dias antes o chamando pra beber.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Uma noite com Jack Kerouac

Era um pouco tarde e o bairro vazio não era convidativo àquelas horas. Havia a brisa do mar que se concentrava atrás dos prédios e o barulho das ondas ao longe que ressoam nitidamente, já que a cidade estava quieta. Os postes fingiam ser sol e projetavam sombras distorcidas sobre o chão de paralelepipedos que seguiam uma daquelas métricas que te hipnotiza e induz a pisar em quadrados certos ou pular as linhas.
Essas divisórias entre as pedras me lembram uma historia que me contaram há um tempo atrás; uma lenda, talvez. Diziam que se por acaso você pisasse nessas linhas divisórias você seria abduzido. Talvez essa historia de ETs vindo te buscar esteja enterrada no subconsciente de cada cidadão que pula essas linhas fazendo uma espécie de aposta consigo mesmo. Vira e mexe faço apostas comigo mesma e nem sei se acredito em ETs.
Ela estava voltando pra casa sozinha, de biquini ainda e com um pouco de caipirinha na cabeça. Não estava se importando com as linhas no chão ou com as sombras das árvores; queria mesmo era saber do cheiro do mar e da textura do vento que sobe dele.
Disse boa noite ao porteiro que respondeu com um aceno indiferente, apertando logo depois o botão que abria o portão e fazia um barulho realmente feio.
Passou pelo estacionamento cheio de carros e depois por uma salinha de espera que nunca tinha ninguém... como os corredores e as escadas.
O apartamento ficava no terceiro andar. As janelas não davam de cara pro mar e o basculhante da cozinha estava de frente pra janela do banheiro da vizinha. Era um lugar espaçoso e um tanto aconchegante, se não fosse o corredor sempre vazio e as paredes amareladas.
A porta do apartamento era de frente pra escada. Ela passava um tempo olhando o olho mágico pra ver se alguma viv'alma subia ou descia as escadas em algum momento dos dias ensolarados ou das noite solitárias, mas nunca viu ninguém, nenhuma prova de que alguém além dela vivia naquele prédio (só sabia que não estava completamente sozinha pelos carros no estacionamento que ela chegou a duvidar que tivessem mesmo donos).
Ela subiu as escadas mais uma vez e seguiu como que por extinto em direção ao apartamento, almejando o sofá e tropeçando nos degraus que ela havia esquecido de contar.
208. As chaves se perderam na bolsa cheia de tranqueiras das quais não conseguia se desvenciliar, como seus óculos escuros e o protetor solar. Também tinha a carteira com quase dinheiro nenhum e um livro do jack kerouac.
As chaves, enfim, e a porta escancarada.
Entrou e trancou-se logo. Largou a bolsa e as chaves na mesa e seguiu em direção a cozinha.
Pegou o pó de café e colocou a agua pra ferver. Deu uma olhada e não vira ninguém no banheiro da casa da frente. Tirou a camiseta e jogou um pouco de água na cara, por mais que sua mãe sempre tenha dito pra não fazer isso na pia da cozinha.
Preparou o café adoçou na caneca vermelha. Seguiu para a sala e sentou-se encarando a TV desligada. Com os pés ainda sujos de areia deitou no sofá após terminar o café. Olhou pro teto e perguntou porque estava ali e como tinha chegado até lá. Passou um tempo sem pensar em nada e depois lembrou um pouco do mar e do som e das cores... e da vodka com limão e dos rapazes queimados de sol.
Desistiu de tentar entender qualquer coisa e levantou-se com esforço indo lentamente até o banheiro e tomou uma ducha, de bermuda jeans e tudo. Molhou os cabelos e saiu pingando procurando a toalha que sempre esquecia de levar junto quando ia tomar banho.
Colocou uma roupa qualquer e foi à sala de novo. Pegou a bolsa em cima da mesa; conferiu as chamadas não atendidas de seu celular sem retornar nenhuma e deitou com as mãos nos olhos outra vez.
As paredes haviam parado de girar e seus músculos voltaram ao normal quando escuta um barulho vindo da cozinha. O microondas despertara por motivos desconhecidos até o presente momento e ela só fez deligar da tomada sem se preocupar, querendo apenas acabar com o ruido infernal.
Seguindo de volta ao sofá que a essa hora já tinha o formato do corpo dela em seu tecido enrugado ela encara a bolsa entreaberta em cima da mesa, com um pouco de areia e manchas escuras e vê o livro de seu amante escondido entre os papéis que ficam ali jogados durante meses.
Ela o pega determinada e vê que o marca páginas amarelo - com uma bela dedicatória e cheiro de lembrança - está quase no fim do livro e resolve terminá-lo ali, em pé, naquele exato instante.
Começa a ler e percebe um trecho grifado que depois de colocar a cabeça no lugar lembra que ela mesma grifou, horas antes, no quiosque, antes de beber com um casal que nunca tinha visto na vida mas que eram legais e interessantes e que só lhe ofereceram uma(s) dose(s) de vodka ao verem que a garota também gostava do poeta beat.
Ela relê com cuidado a parte marcada no livro e descobre um dos trechos mais lindos que já lera na vida*; uma espécie de oração sem medo de adorar a Deus sabendo que tudo é Deus. Um mantra jogando na cara dela que você não deve ter preconceitos em relação a nada já que tudo é o que é e é puro e intenso e verdadeiro. Um poeta falando sobre o amor a tudo por pior que seja. Alguma voz dizendo à garota que nada é bom nem mau, que tudo é vazio e desperto, uma visão e um filme na mente universal de Deus.
Ela fechou o livro após dar-se conta de que a vida era o que fazia parecer ser e que ela precisava compreender todos os segredos e diferenças para então ser livre como os incontáveis átomos da vacuidade em todos os lugares.
Era tarde, o corredor do prédio continuava vazio. Ela apagou um cigarro numa das caixinhas de areia que ficam embaixo das escadas e saiu a procura do que ela nem sabia o que era, só sabia que encontraria.
Olhou aos céus logo depois de dizer ao porteiro que já voltava e agradeceu a Jack Kerouac e às estrelas. Seguiu sem pisar nas linhas divisórias e encarou o mar quando chegou em frente a praia.
Sentiu-se livre pela primeira vez. Inteira pela primeira vez. E concluiu que

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Era verão. Ou era quase verão. Só sei que chovia constantemente e fazia calor, também.
Por isso ele sempre saia sem camisa e ela sempre levava um guarda-chuva.
O fato de sair sem camisa não fazia com que ele sentisse menos calor e levar um guarda-chuva não a privava de se molhar, mas mesmo assim eles insistiam em aproveitar até mesmo esses dias traiçoeiros, porém bonitos e poéticos.
Num desses dias de verão (ou quase) resolveram não sair de casa. Ela precisava terminar uns trabalhos da faculdade e ele estava no meio de uma nova matéria pro jornal no qual trabalhava.
Ela estava toda suja de tinta e ele com as costas doloridas. Resolveram parar e fazer uma happyhour pra espairecer.
Ela abriu a garrafa de vinho e ele pegou os copos. Ela encheu-os enquanto ele beijava seu pescoço. Ele ria enquanto ela se insinuava e seguia rumo à vitrola velha que trouxera consigo como única lembrança que valia a pena carregar.
Ela colocou seu disco e veio dançando na direção dele, que sorria bonito caindo languido no sofá que custaram a comprar.
Ele abriu os braço e ela sentou em seu colo e beijaram-se ardentemente enquanto a música seguia fria e rápida.
Ele segurou o pescoço dela enquanto ela passava-lhe as mãos nos ombros ossudos.
Suas línguas brigavam entre si enquanto os corpos todos encontravam-se num frenesi desconcertante.
Ventava muito e sol estava sumindo aos poucos, mas eles nem perceberam.
Ela levantou e encarou-o, logo depois entregou-se novamente.
Ele arrebentou-lhe a camiseta manchada de tinta enquanto ela unhava-lhe as costas estreitas.
A música continuava intensa e os copos de vinho, cheios.
Ele a invadiu com mais amor impossível e ela retribuiu com o beijo mais doce que ele ja experimentara.
Entraram em êxtase juntos, sorriram juntos, se abraçaram juntos. Tornaram-se um só por um longo espaço de tempo, como se nunca mais fossem se ver.
Se completavam por simplesmente serem.
Ele passou as mãos no rosto dela e balbuciou algo que ela nunca entendera.
Ela beijou-lhe os olhos e disse que sentia-se feliz.
Ele nunca fora tão sincero quando concordou.
Ela apoiou seu queixo no ombro dele enquanto ele sentia a textura da pele dela com os dedos.
Ele se levantou e pegou os copos de vinho enquanto ela acendia um cigarro.
Degustaram o vinho como se ele fosse o ultimo. De alguma forma eles sabiam que seria... e que, na verdade, o verão já havia passado.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Uma síntese

Ela tinha os olhos curtos e os cabelos grandes. Ou seria o contrário? Não importa.
Ele era magro demais, tinha bochechas fundas demais, era louco demais; o excesso era seu equilíbrio.
Eram opostos, antíteses, com um segredo em comum. Um segredo quieto, sublime, rastejante, reservado ao vácuo interno de cada um deles.
Possuíam um vazio que julgavam impreenchível e um demônio que os devorava aos poucos.
Ela quase não sorria, ele quase não dormia. Completavam-se distantes.
Olhavam-se em silêncio. Nunca se tocavam. Mas as pessoas percebiam que algo queimava dentro deles quando se aproximavam um do outro... só que nunca chegaram muito perto, com medo de que as faíscas provocassem uma explosão.


Isso faria mais sentido se postado há dois anos atrás,
quando fora escrito.
Hoje, não passa de um resumo de algo verdadeiro
que acabou por deixar de ser platônico.
Irônico, não?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Julieta sem Romeu

Julieta nunca sentiu-se tão cansada.
Passou grande parte da sua curta vida vivendo-a intensamente; sendo feliz a sua maneira.
Durante muito tempo procurou compreender-se para então encarar o mundo. Permaneceu dentro de si até estar segura o bastante.
Ela tinha olhos escuros e fracos; meigos, de tão grandes. A grandeza deles combinavam - e até quase rimavam - com sua boca fina, delicada e bem desenhada, que nunca fora notada.
Ninguém reconhecia a beleza e a poesia que existiam naquele contraste sublime. Julieta era tão sutil que passava despercebida por todo um mundo pífio.
Mas ela não se importava com a indiferença. Estava preparada e sabia que seria feliz sozinha, pois ela tinha tudo o que precisava ao alcance das mãos: imaginação e vontade de viver, uns homens e um pouco de dinheiro que seu pai, que morreu de cirrose por beber demais, deixou escondido pra ela, com medo que a mãe, uma puta velha que gastava o pouco dinheiro que raramente ganhava com seus programas em cocaína e vodka, gastasse tudo antes da filha ter idade pra usá-lo.
As pessoas não entendiam-na. Questionavam-se - já que não tinham mais o que fazer - por que a garota, com uma infância tão difícil, vivia sorrindo e cantando pelas ruas, com um brilho forte e um sorriso amarelo estampando-lhe o semblante terno.
Julieta fazia curso de teatro, morava com a avó, "desperdiçava" tardes fotografando o caos urbano e falava sozinha.
Pintava frases nos muros da vizinhança; frases repletas de sentido que ninguém entendia.
Um dia mandaram interná-la. Alegando insanidade da parte da pobre garota feliz.
Ela está agora num quarto do manicômio de sua cidade, dopada, por viver num mundo louco demais pra ela.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Arco-íris.

Nuvens tristes desfaziam-se em lágrimas insípidas, assistindo a um grande teatro de marionetes.
A água escorria pelas ruas sujas, levando todas as impurezas possíveis para o esgoto, mas mesmo assim deixando um mundo imundo às suas costas.
As pessoas andavam apressadas, desviando da água empoçada e protegendo-se - mesmo que muito pouco - com guarda-chuvas enferrujados, furados, rasgados e tortos, criando um belo show de telhados negros perambulando pelo dia molhado.
Amelie corria, espirrando água na barra de seu vestido que outrora fora branco como as nuvens felizes dos dias ensolarados. Passava pelas poças sem se preocupar com o resto do mundo.
A chuva batia em seu rosto com força, quase rasgando-lhe as bochechas rosadas. Trazia os olhos semi-serrados, abertos o suficiente para enxergar o caminhos e um pouco fechados para diminuir o números de pingos assassinos que queriam invadí-los.
Um sorriso de satisfação iluminava-lhe a face. Amelie não era muito bonita, mas aquela chuva tornou-a a garota mais fascinante da cidade!
Antônio estava parado em frente a uma padaria, protegido pelo toldo azul com listras brancas. Tinha saído pra almoçar e a chuva pegou-o de surpresa - estava sem guarda-chuva. Havia muita coisa pra fazer no escritório, e a tempestade parecia não abandonar o dia tão cedo. Estava criando coragem para sair na chuva e voltar ao trabalho - todo ensopado, mas a tempo de terminar suas tarefas.
Observava indiferente a movimentação frenética de sapatos molhados e passos rápidos. Bocejava constantemente. Suas costas doíam e seu corpo estava cansado de ficar alí, parado, em pé, esperando que as nuvens parassem de chorar...
Já estava na terceira latinha de coca-cola. Bebia só por não ter o que fazer. Estava exausto e o dia mal começara.
Amelie era livre e passou correndo por Antônio, que a seguiu com os olhos invejando sua liberdade e despreocupação.
Eles não perceberam o quanto se completavam. Ela precisava de segurança e ele, de um pouco de loucura.
O óculos de Antônio embaçou. Amelie sumiu no meio de um mar de gente. A chuva parou. Antônio seguiu seu caminho.
Só restou um amor perdido em um dia de chuva e o arco-íris de óleo que os carros deixaram no asfalto.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

vícios e virtudes

João já estava quase todo calvo e, por isso, orgulhava-se de seus últimos fios de cabelo, os quais penteava frenética e roboticamente todas as manhãs, em frente ao espelho semi-embaçado depois do banho quente de todos os dias.
Maria só usava vestidos abaixo do joelho há um bom tempo. Pintava os cabelos de cinza pra não tê-los todos brancos. Maquiagem forte pra esconder as rugas de toda uma vida. Fazia um arroz como ninguém.
Ele dormia sentado no sofá, esperando pelo café da manhã que Ela fazia com todo o amor.
Se conheceram no bingo. João foi jogar, porque já tinha bebido demais, e Maria era uma velha viciada que estava lá todos os dias e dava em cima de todo velhote que ganhava mais na noite. Naquela noite, o 'felizardo' foi João.
Ela, como sempre, pagou-lhe um drink e o levou prum motel.
Fizeram amor a noite toda, como animais. Gritavam, bêbados - compraram muitas garrafas de alguma coisa com o dinheiro que João ganhou na noite.
Depois, ele pagou uma café da manhã reforçado pra desconhecida.
Maria, sem querer, apaixonou-se pelos olhos azuis de João... e ele, pelas coxas firmes de Maria, que mesmo aos 62 anos estava "em forma".
Resolveram largar a vida que levavam e foram morar na casa dele, já que ela vivia com a familia a filha.
João trabalhava no banco há uns 40 anos e não aguentava mais, mas, por causa da imensa burocracia, não conseguia aposentar-se. Sem filhos, ou qualquer outra pessoa que pudesse sustentá-lo, trabalhava, mesmo tendo já 65 anos e uma vista debilitada.
Maria recebia uma pensão pela morte do marido, causada por um vazamento de produtos químicos de alguma empresa.
Viviam em perfeita harmonia. Maria adorava gatos; eles tinham uns 4. João gostava de bermuda com elástico, por achá-las mais confortáveis; Maria não ligava se eram feias demais.
Faziam compras no supermercado, tomavam suco natural todos os dias e passavam a tarde conversando sobre o céu, ou os pássaros, ou o jardim.
A noite era sempre o mesmo ritual; A janta, os dentes, o copo d'água e o beijo de boa noite.
Com o tempo já não sentiam mais tesão um pelo outro, mas estavam seguros ali. Certos de que morreriam juntos, não conseguiram mais se separar. Viviam uma grande mentira por comodidade, por conforto, por conformismo.
Maria falava que ia à missa e João dizia que ia jogar baralho na casa do vizinho, que era um pastor de igreja evangélica carrancudo.
Ele tentava não ficar muito bêbado e ela procurava não gastar todo o dinheiro.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

mais uma farsa

O salão estava bem decorado; de um bom gosto incrível. Toalhas vermelhas faziam um belo contraste com as flores brancas. Pessoas da alta sociedade, muito elegantes e adoráveis, desfrutavam de um belo jantar beneficente, acompanhado de um leilão de desenhos feito por crianças pobres - aquela mesma história de sempre.
Ela saiu primeiro, sem ar. Ele veio logo atrás. Os dois precisavam sair de lá. Sentiam-se presos, abafados. Pensaram, por coincidência, que o ar de fora estaria mais respirável.
A noite estava muito melhor do outro lado. Escutava-se o tumulto quase baixo que vinha de longe, do salão, e podia-se contemplar um show de luzes piscantes na relva orvalhada que envolvia o local. Cheiro de terra molhada. Acabara de chover. Temperatura e umidade perfeitas para qualquer coisa.
Ele encontrou-a de costas, fumando com pose de puta. Ficou doido. Pegou-a pelos cabelos e virou-a em sua direção.

Ela tinha os olhos verdes e ele, um sorriso amarelo. Ambos perfeitos representantes da classe alta. A mulher usava um vestido um pouco acima dos joelhos. Negro, combinando com a noite e com os cabelos soltos. O homem, o de sempre.
Encararam-se por muito tempo. Existia desejo nos olhos brilhantes e nos lábios entreabertos. Não existia mais nada além deles. Era só o momento, os grilos, e o misto de tesão e ansiedade.
A lua brilhava com metade de todo o seu potencial; haviam estrelas no céu e uma brisa suave balançando-lhes as roupas e os cabelos..
Ela deu o penúltimo trago. ele fez o favor de terminar com o cigarro. Soltaram as fumaças para lados opostos e permitiram-se.
O vestido um pouco curto facilitou o ato. Ela encostou-se, precisava de apoio. Ele era bom naquilo. Ela não sabia, até então, pra que servia seu corpo.
Derramaram algum bálsamo interior juntos. Frenesi desconcertante. E sem bagunçar o penteado ou amarrotar as roupas.
Ele tinha gosto de coisa velha e ela o beijo um pouco rápido demais. Mas não importava.
- É melhor voltarmos ao jantar. Vão sentir a nossa falta.
- É, você está certa.
- Obrigada pela noite, desconhecido.
- Por nada.
Voltou cada um ao seu respectivo lugar - longe um do outro, com os olhos culpados e um sorriso de satisfação contraindo-lhes os lábios.
Ela beijou o marido e disse que estava melhor.
Ele serviu um pouco de vinho à sua mulher, comentando como ela era a mulher mais bonita daquele jantar.
E os amantes de uma noite nunca mais se falaram.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Amor de Restaurante

Eu já estava à mesa havia um bom tempo; rodeado de amigos, cigarros e garrafas de cerveja - algumas vazias e outras ainda cheias.
Elas tinham um papo interessante - as pessoas e não as garrafas.
Elas me faziam gargalhar e esquecer que ainda era terça-feira - as garrafas e não as pessoas.
A música me perturbava, mas eu estava quase deixando de me importar com ela.
O local era amplo e encontrava-se vazio. Ainda era cedo, só meus amigos e eu estávamos "alegres", falando alto e gesticulando com muita animação.
Era um restaurante frequentado por pessoas que vira e mexe desfrutavam de uma "happy hour" no meio da semana, pra aliviar de todo o "stress".
Eu tinha comido uns aperitivos e esperava ansioso pelo prato principal; estava na 4ª garrafa de cerveja e com um imensa vontade de ir ao banheiro.
Conversa vai, bebida vem, mais alguns "croquetezinhos" e ela entra. Óculos escuros, pisadas fortes como a expressão facial, pernas finas e maiores que o normal. Cabelos lisos, longos e castanhos, caindo pelos ombros nus, brancos e ossudos, onde aparecia um pedaço na tatuagem que, na minha mente fértil, estendia-se pelo resto das costas que também deveriam ser brancas e ossudas. Trazia, entre o braço e as costelas, uma bolsa grande que combinava com seus sapatos de verniz.
Sentou-se na mesa mais afastada da ala dos fumantes; bem embaixo de um quadro de rosas vermelhas, com 3 botões, duas flores abertas e outra já despetalada, com as pétalas murchas, da cor do vinho que pedira ao garçom.
Ele trouxe a garrafa de tinto, enchera-lhe uma taça e ia afastando-se da mesa quando os lábios bem desenhados da moça quase suplicaram para que ele deixasse a garrafa inteira.
Ela tinha um aspecto impaciente, e essa foi minha vez de implorar, para que ela não estivesse esperando ninguém - eu ainda tinha esperanças que teria coragem de dirigir-lhe alguns elogios e talvez um convite.
A garota tirou da bolsa um livro de bolso e eu, com a vista já um pouco embaçada, não consegui decifrar o título da obra. Além de bonita, gostava de ler, despertando assim meu mais profundo interesse sincero.
Minhas pernas balançavam embaixo da mesa. A vontade de falar-lhe deixou-me um tanto quanto ansioso demais; eu me desconhecia, não me reconhecia, estava impressionado, apaixonado, louco!
Ela tinha uma postura indiscutivelmente bela e parecia, ali no seu canto sem janela, viver num universo paralelo.
Não tirou os óculos, mesmo não batendo sol onde se encontrava - nem em qualquer outra parte do restaurante. Imaginei muitos motivos: estava com os olhos chorados, ou acordara com olheiras, ou algo que o valha. Não sabia - ainda não sei - só sabia que o mistério que os óculos escondiam deixou-me imensamente excitado.
Serviu-se generosamente de mais vinho, e terminou a segunda taça rapidamente, tornando a enchê-la.
Alguém chamou minha atenção, perguntando se eu concordava com o que acabara de dizer. Fiz que sim com a cabeça, sem desviar os olhos da mulher sozinha no canto.
Deu pra ver de longe suas unhas vermelhas; e eu, de longe, imaginava seu cheiro, seu gosto, sua pele, seu toque. Surpreendi-me pensando em como seria ter uma vida com ela: casa, filhos, televisão, renda estável, um sofá confortável.
Ela era linda. As bochechas fundas exibindo um maxilar retangular e muito liso. A boca tocava a taça com uma leveza fora do comum. Eu podia sentir o vinho esquentando-lhe a garganta e alojando-se confortavelmente em seu estômago - que devia ser belo como todo o resto...
As mãos trêmulas, brancas como a toalha da mesa, seguravam o copo com uma firmeza incrível. A energia dela deixava meu ar repleto de eletricidade, fazendo-me ficar desnorteado. Era como se minha eternidade tivesse se instalado na língua que degustava o líquido cor-de-sangue.
Achei, por um segundo, que a amava; depois, quando vi que ela despejava o ultimo gole de vinho na taça, tive certeza.
Chamei o garçom, pedi que desse de presente à moça outra garrafa do mesmo vinho, dizendo o desprezível clichê de que era de um admirador secreto.
Ele o fez. Li que os lábios dela diziam "obrigada", mas ela fez que não podia aceitar e levantou-se, deixou o dinheiro em cima da mesa e saiu, com pisadas fortes, sem olhar pros lados, da mesma forma que entrou.
Pensei em ir atrás dela, mas limitei-me a imaginar qual seria a cor de seus olhos.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

amor inventado


Arregalou os olhos cor de vidro. Visou um alto escuro, longe demais para encostar.
O corpo estava todo rígido, esticado, como se existissem milhares de cãibras o tempo todo!
"Ele é meu. Só meu. De mais ninguém!". E repetia isso à ela mesma, sem trégua, na mente anestesiada, para se convencer disto.
Não sentia nada. Só uma vontade de algo que desconhecia.
Hipnotizada, não tirava o olhar do teto preto. Não sabia distinguir se os olhos abriram-se ou se os mantinha ainda fechados.
Não sabia onde estava. Só sabia de uma coisa: Que ele era dela. Só dela. De mais ninguém.
Mas ele não pensava assim; Ninguém pensava assim, só a pobrezinha, que estava agora sob os efeitos de algo que deixou gosto de coisa amanhecida na sua boca.
Ele estava dormindo. Do lado dela. Mas ela não o sentia. Ele não se sentia.
Ah! As loucuras cometidas pelos dois juntos, pra dividir o peso. Ele roncava, mas ela não escutava. Anestesiada.
Devia ser madrugada ainda. Não entrava luz pela janela, nem por nenhum outro lugar.
Ele era um filhodaputa. Ela também, só que menos escancaradamente.
Eram uns corpos e uns copos extras que quase fodiam com tudo.
Umas outras pessoas que só existiam pra acabar com a paz deles.
Porra, por que elas não ficavam no seu devido lugar, contentando-se em deixar os outros serem felizes?
ah! e eram tantos os infortúnios que o destino preparava que não se sabia como mantinham-se em pé.
E todas aquelas garotinhas inocentemente invejosas. E ele aproveitava tudo que a vida o oferecia.
Ela não achava certo, mas também o fazia.
"Ele é meu!". Sussurrou. "Meu!".
Ele acordou. Virou pro lado.
Encostou nela.
O corpo amoleceu na mão macia, no toque suave.
"E eu sou sua!"
Ele achou estranho uma declaração tão óbvia dessas, mas gostou de saber mais um pouco que a possuía. Deu-lhe um beijo e disse que também era dela, despretensiosamente.
Ela sabia que era mentira. Ele também.
Os dois viraram e tentaram dormir.
Só uma coisa era certa: Amavam-se.